Cooper é meu Mr. Hyde
Cooper morreu.
Todos os que passaram a acompanhar o Sexto Sexo – que detinha um histórico de posts desde setembro de 2008 – devem estar pensando que esta é uma morte deveras prematura. Mas não é.
Cooper nasceu em 2001 (no antigo endereço www.cooper.blig.com.br). A onda dos blogs mal havia começado. Eu morava em Ouro Preto (MG) à época. Começava a mexer na internet e fiquei fascinada com a ideia de poder administrar meus textos através da rede. Fã dos velhos diários e agendas, amontoara pilhas de cadernos durante toda a vida – os quais sempre se perdiam em meio a várias mudanças de cidade ou ficavam acabados por causa de umidade, mofo e poeira. Disquetes não eram confiáveis. CD’s ainda eram raros. Eu poderia armazenar minhas histórias em um blog. Grande achado!
Naqueles tempos, blogs eram diariozinhos virtuais. Eu queria fazer diferente. Criei uma personagem – e mantive total discrição sobre quem estava por trás dela. Uma personagem que, na verdade, viria a ser um alterego. Morando em uma cidade pequena, com poucos atrativos e com muito tempo livre, logo me vi espelhando os desejos em Cooper. Era um pedaço de mim. Era uma forma de tentar explicar coisas que eu não entendia, vivenciar fantasias, explorar aquela transição maluca de adolescência a idade adulta. Se quando jovens somos todos loucos e dramáticos, Cooper me ajudava a não enlouquecer.
Em 2002 me mudei para o Rio de Janeiro (RJ). Continuei mantendo o blog, porém, minha identidade logo veio a público. Tudo bem. Não afetava em muita coisa. Aliás, foi muito bom, até: no ano seguinte eu começaria a cursar jornalismo e o blog viraria minha vitrine. Comecei a receber várias propostas de trabalho em função daquele espaço. Algumas pessoas enxergavam um estilo diferente de texto e me chamavam para escrever para veículos impressos, sites e afins. Aproveitei a visibilidade e usei minha imagem para “vender” mais o produto. Era um belo marketing. Vaidosa, gostava muito do resultado.
Logo surgiu a proposta de escrever um livro baseado nos textos. Era um sonho realizado. Quando criança, sempre quisera lançar um livro. A ideia acabou não vingando, porém, à essa altura (idos de 2004, 2005) eu já estava completamente tomada por Cooper.
Durante um tempo não soube separar quem era quem. E até me aproveitei bem da situação. Exorcizei fantasmas.. Fiz do espaço meu divã. Alfinetei gente do dia a dia. Fiz o deleite de parceiros escrevendo textos inspirados em experiências pessoais. Mandei recados ocultos a pessoas da minha convivência.
Em 2008, o blog foi para domínio próprio, ganhou destaque na página de sexo do IG e a coisa cresceu vertiginosamente (sem trocadilhos, por favor). Aí descobri que não estava nem um pouco preparada para aquilo.
Comecei a me tornar a “Cooper do Sexto Sexo”. E sempre associada ao sexo em si. Sim. É um dos meus assuntos favoritos. Mas pouca gente se deu conta de que muitos dos textos não falavam sobre sexo. E que o “Sexo” do título não se referia a uma modalidade sexual – mas ao gênero.
Hoje, oito anos depois de começar o blog, não sinto mais a necessidade de fazer dele meu divã. Comecei a sentir os textos virem repetitivos. E me peguei cheia de policiamento. Às vezes escrevia uma história que abrigava coisas muito peculiares e, de repente, alguém vinha sugerir: “Oba, gostei. Agora escreva sobre fetiches com pés”. Eu não estava querendo saber do “escreva”. Nada de imperativos. Meu verbo era na primeira pessoa do presente. “Escrevo”. “Eu escrevo”. E de repente meu espaço de pequenos exorcismos estava atingindo a fantasia de outras pessoas. Desconhecidos vinham relatar seus desejos sexuais sem cerimônia, e eu pensava:
- Meu Deus! Esse sujeito nem me conhece! Como vem relatar suas experiências assim, sem mais nem menos?
E minha liberdade para escrever se foi, porque eu nunca sabia quando poderia me inspirar na realidade ao fazê-lo – e depois ter de suportar o fardo de lidar com o sujeito protagonista da história, que terminou por se encontrar nos textos. Eu não mais sabia quando podia ser egocêntrica ao extremo – tal qual Cooper – e depois aguentar um qualquer achando que ali era a Fernanda. Eu não sabia quando poderia exercer minha vaidade posando para fotos sem ter noção da vontade do fotógrafo de encontrar a figura quase mitológica que eu mesma criei.
Só que, em meio a tudo isso, eu não queria mudar o estilo original da obra! Não era tão simples. A essência de Cooper era aquela. Nasceu para ser alterego. Nasceu para ser roman à clef. Era exatamente esse direcionamento que me atraía.
Mas não tinha jeito de evitar os infortúnios. Era o poder de Cooper. Ela virou um monstro que, de repente, começou a engolir a jornalista, a profissional que sempre viveu de outras coisas muito separadas do blog.
Reitero que sou bastante orgulhosa do trabalho feito nesses oito anos. Mas tudo sempre muda. Cooper foi uma dádiva que me trouxe bons trabalhos, bons amigos, boas oportunidades, porém, perdeu sua principal função: representar um lado meu que não tinha coragem de ser real.
Talvez eu tenha errado ao começar este texto dizendo que Cooper morreu. Acho que agora ela está mais viva do que nunca. Mas na vida offline. E ocupando exatamente o mesmo espaço – sem nenhum privilégio extra – que todas as outras mulheres que vivem dentro de mim.
Fernanda Lizardo
Agradecimentos especiais ao Fausto Salvadori do Boteco Sujo, que foi o primeiro a dar a notícia.
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