10 lições que aprendi na marra
É lógico que já recebi muitos conselhos.
E é lógico também que ignorei alguns deles.
O fato é que nenhum conselho se compara ao ato de ir lá e passar pela experiência. Eis algumas coisas que aprendi na marra:
1. Às vezes é melhor ignorar o que pode te chatear Essa é a máxima mais válida em tempos de internet, quando se é possível vasculhar o perfil do ex-chefe no Facebook, fuçar o Orkut da ex-namorada, bater boca com o desafeto no sistema de comentários do blog ou no Twitter. Há quem goste de martelar aquela situação chatinha – que não chega a causar grandes estragos, mas que pode ser um calo no calcanhar. É a necessidade de dar sempre a última palavra. Aprendi a deixar isso de lado, não apenas no mundo virtual como no real. Em alguns momentos ofereço uma única resposta e desapareço de cena. E é incrível como aquela situação que te cutuca some do pensamento rapidamente quando você não cria o estímulo.
2. Intimidada ficava a sua avó Poucas expressões podem ser mais amedrontadoras do que a frase “reunião com a diretoria”. Há alguns anos, trabalhei em uma empresa que fazia verdadeiro estardalhaço quando recebia a visita de um dos “chefões” estrangeiros. Um dia, calhou de eu ter uma reunião específica com um deles. Como eu era a única pessoa da equipe que conhecia o processo inteiro do trabalho – e não apenas algumas etapas – não havia como escapar e precisava estar preparadíssima. É claro que nem dormi na noite anterior.
No dia da reunião, tudo fluiu tranquilamente. O sujeito era calmo e tinha aquela retração natural dos gringos, que sempre se colocam humildes diante de uma cultura diferente. Aí vi que ele mesmo não era o criador da pressão. Era tudo fruto de um bando de puxassacos que o valorizavam apenas pelo título que possuía na companhia.
Desde esse dia, nunca mais fiquei tensa com isso. Reunião com diretor? Entrevista com aquela celebridade de gênio ruim? Entrevista de emprego? Se eu ameaço ficar nervosa, sempre penso: “Você é feito da mesma massa que eu. Se algo der errado, não será o fim do mundo”.
3. Ninguém é obrigado a ser feliz e grato o tempo todo Se eu fosse marcar minha vida por acontecimentos “decisivos” (porque o ser humano tem mania de estipular datas notórias para tudo), diria que foram três.
O primeiro foi logo quando nasci. Minha mãe tinha câncer na época e eu, literalmente, dividi o espaço no útero com um tumor maligno. Obviamente, ela se recusou a abortar e a gestação complicada rendeu um parto no 5º mês e 18º dia de gravidez. Eu pesava pouco mais de meio quilo quando nasci. E todo mundo apostou que meu desenvolvimento não seria normal.
O segundo, foi aos 17 anos. Depois de tomar um tombo bobo de bicicleta, arrebentei a coluna cervical. O primeiro médico que viu minha radiografia perguntou à família se eu estava respirando por aparelhos. A lesão ficou a milímetros da medula. Tirando os meses de fisioterapia e o incômodo de usar um colar cervical num calor de 40°, não houve maiores consequências.
O terceiro, foi aos 21, quando descobri uma aneurisma na jugular e fui operada em caráter de urgência.
Se você clicou no link do aneurisma, certamente encontrou uma daquelas reportagens edificantes sobre a importância da vida. Mas a verdade é que não me sinto assim. Eu queria acordar e dizer “Oh, mais um dia lindo, mais uma chance”, mas de manhã cedo só consigo pensar em coisas como: “Preciso correr para não chegar atrasada”, “Onde está o celular da empresa?” ou “Vou colocar amaciante na roupa que está na máquina para adiantar as coisas de casa”. A verdade é que o mundo nos cobra a felicidade do aqui e agora. Mas não tem como ser assim. Ao menos não o tempo todo.
Eu me sentia superculpada por não reconhecer o valor das minhas “situações-limite”, mas aprendi que não tem de ser desse jeito. Não sei o que passei quando nasci porque é claro que não me lembro de nada. E as outras duas situações… foram tão rápidas e tão improváveis que não deu tempo de ver aquilo como uma provação. Tenho meus momentos de felicidade, mas não vou sair dizendo que “sinto mais prazer em pisar na grama e sentir a natureza” só porque é isso que as pessoas querem ouvir. Até porque a vida é feita de altos e baixos.
4. Não é vergonha ter arrependimentos Pegue uma revista de celebridades. Qualquer uma. Procure por uma entrevista. Em alguma página você encontrará aquela atriz famosa dizendo “Prefiro me arrepender só das coisas que fiz”. Eu sempre desconfio disso. Parece uma tentativa de amenizar as besteiras cometidas. Eu tenho arrependimentos. Já extrapolei e magoei pessoas que não mereciam. E já deixei de ser dura com quem merecia uma bela de uma patada. Já tomei decisões erradas. Dá para consertar? Às vezes não. Mas é isso. Se pudesse reverter algumas situações, reverteria. Se dá para fazê-lo mesmo, aí é outra história. Tento não sofrer, mas, sim, me arrependo de algumas coisas que fiz e não tenho receios de confessar isso.
5. Não existe momento ideal para realizações Conheço um sujeito de 35 anos que nunca saiu de casa. Sempre morou com os pais e diz que só sairá quando estiver em situação adequada para fazê-lo. Acontece que ele se acostumou tanto à vidinha acomodada, que não consegue construir a tal adequação que criaria as condições para morar sozinho. Ele tem um emprego mediano e uma vida sem grandes perspectivas. E já me confessou ser infeliz por nunca ter feito nada por si. É triste, mas acho que a vida dele não será nada muito diferente do que é hoje. O fato é que, se ele for ficar esperando pelo momento certo, o tal momento não vai chegar. É ingenuidade achar que dá para correr riscos sem quebrar a cara. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, há sete anos, nem sabia direito o que estava vindo fazer aqui. Só sabia que queria mudar a vida. Consegui meu primeiro emprego três horas depois de chegar à cidade. Comprei o jornal para sondar o valor de aluguel de imóveis e terminei como captadora em uma imobiliária. Financeiramente, não compensou, mas consegui duas coisas importantes: autoconfiança para saber que tinha tomado a decisão certa e um bom método para conhecer a cidade para a qual eu havia acabado de me mudar.
6. Nenhum emprego é um demérito Esse item complementa o anterior. Já trabalhei como técnica de edificações, já fui captadora e corretora de imóveis, já fui recepcionista, já fui jornalista. Meu primeiro emprego de carteira assinada foi como garçonete.
Houve uma época em que consegui me consolidar profissionalmente e, de repente, depois de quatro anos em uma mesma empresa, fui pega por fatores extraordinários e tive de abandonar o barco. Quando se mora com papai e mamãe, é mole não entrar em desespero. É uma situação chata, claro, mas no máximo o corte se limita à TV a cabo e à internet de 8MB. Porém, quando se mora só, o primeiro pensamento é: “Se eu não arranjar nada em um mês, a geladeira ficará vazia e serei despejada”.
Por causa disso, nunca limitei o trabalho à minha área de atuação. O bicho pegou? Então vamos voltar às origens. Não é problema voltar a ser garçonete só porque tenho curso superior. Procuro usar as habilidades acadêmicas no que estiver fazendo (“A garçonete mais comunicativa do pedaço e com inglês fluente para atender em restaurantes frequentados por estrangeiros”) e continuo almejando crescer dentro daquela área (“De garçonete posso virar supervisora… Depois gerente….”).
Se é para voltar a fazer estágio, trabalhar fora da área de formação, tudo bem… Vejo muita gente torcer o nariz para isso e digo: bobagem.
7. É preciso saber esperar Desde criança eu tinha vontade de lançar um livro. Em certa época, cheguei a mandar originais a várias Editoras. Vieram várias cartinhas de agradecimento (e recusa) e, na maioria dos casos, notei que o pacote nem fora aberto. Quando recebi o convite para ter a chance de lançar o Sexto Sexo, estava totalmente desencanada do assunto. Simplesmente veio. E foi assim em outras situações também. Já cheguei a reencontrar aquela paixão platônica de adolescência (que nunca me deu bola) após dez anos sem contato. E aí finalmente rolou tudo com o qual eu tanto sonhara. Não acredito muito nessa coisa de destino, mas acredito em paciência.
8. Não importa o que faça; algumas pessoas sempre vão falar de você Certa vez, depois de me separar de uma pessoa com quem me relacionei (e de quem gostei muito), fiz uma experiência: em vez de choramingar com a turma, optei por não comentar o assunto com ninguém. Me afastei por completo (incluindo virtualmente) dos amigos em comum com ele. A intenção era ficar longe até esperar a poeira baixar e não dar vazão para ficarem elucubrando sobre o que levou o relacionamento ao fim – porque afinal, isso só dizia respeito a mim e a ele. Não adiantou. As fofoquinhas surgiram do mesmo jeito. Meu nome circulou em muita mesa de bar, ainda que eu, parte interessada, não tivesse tocado no assunto ou ao menos encontrado qualquer pessoa do círculo. É isso. As pessoas sempre vão falar. Deixe falarem. Eu fiquei com a consciência tranquila por ter aplicado a primeira regra lá de cima: me afastar. Se surgiu qualquer conversinha, sei que não teve a ver com nada do que eu disse. E isso me dava moral suficiente para me sentir bem melhor do que quem se meteu onde não foi chamado.
9. Você não precisa dizer tudo o que pensa ou pretende A gente tem mania de querer quebrar silêncios. Em muitas situações me senti na obrigação de dizer alguma coisa. E é lógico que houve dias em que falei mais do que deveria. Parei de opinar sobre tudo e todos. Parei de me sentir na obrigação de dar palpites. E parei também de contar meus sentimentos às pessoas. É incrível como essa coisa de saber ficar calado te poupa de aborrecimentos. Por não opinar na hora errada, você diminui sensivelmente os conflitos. E por não contar demais sobre o que anda fazendo, as pessoas te fazem bem menos perguntas. Por fim, se seus planos dão certo, ninguém te bombardeia com um desdém meio invejoso ou se intromete. E se dão errado, ninguém fica sabendo.
10. Tudo passa (e às vezes passa em apenas duas semanas) Para essa situação, gosto de dar um exemplo estúpido, mas muito comum à maioria das pessoas. Lembra daquele amor de adolescência que te fez sofrer horrores? Lembra que, naquela época, você jurou que nunca mais “amaria” ninguém? E você se lembra dessa pessoa hoje?
É isso. Simples assim.
A gente sofre horrores por algumas coisas, mas depois de um tempo, passa. Sempre que estou em situação complicada, procuro fazer uma projeção, refletir se estarei sofrendo por isso daqui a alguns meses ou um ano. Sei que a parte mais angustiante é não saber quanto tempo vai levar para passar. Mas há ocasiões em que nem demora. Já aconteceu de eu estar em situação péssima em diversos setores: profissional, afetivo, financeiro, saúde. Utilizando o clichê: o verdadeiro mato sem cachorro. E de repente acontecia algo que dava um giro louco em tudo. E 15 dias depois a vida estava nos eixos. Sim, tudo passa. E gosto de confiar que a maré ruim não dura.
Aliás, eu diria que essa última lição anula todas as outras nove. Não interessa o que aconteça na vida: tudo vai passar.


3 e a 9 são perfeitas ( ficar calado é ótimo !!! )
[...] vez a idéia veio da postagem da Fernanda Lizardo no Sexto Sexo. Acompanho o Sexto Sexo desde que a Cooper – a personagem – ainda postava [...]
Sensacional!
Essas lições que aprendemos na marra, são as que nunca esquecemos.
Muito bom.!
[...] This post was mentioned on Twitter by fernandalizardo and Filipe Quintans, Lucas Koehler. Lucas Koehler said: RT @fernandalizardo: 10 lições que aprendi na marra http://migre.me/cAhV / E eu assino em cima! Muito bom!!! =P [...]