Brigando (pelos motivos errados)
Ontem no metrô acompanhei uma longa conversa – contra minha vontade, faço questão de dizer. Havia uma mulher sentada ao meu lado falando muito alto ao celular. Aparentemente, estava brigando com o ex-marido. Em meio a todas as ofensas que só uma mulher de coração partido é capaz de desprender, falou-se muito em divisão de bens, aumento de pensão e afins.
Como fiquei dentro do vagão praticamente da primeira estação à final, diria que deu para saber muito da vida da criatura. Não vou entrar em detalhes sobre a grosseria que é berrar ao celular dentro de um veículo de transporte público; vou focar no desgaste que a situação parecia trazer à mulher. Era possivel perceber que o divórcio estava em caráter mais do que litigioso e que ela talvez tenha passado o(s) último(s) ano(s) em guerra. Tinha aspecto e voz cansados, uma sombra de abatimento nos olhos e a cara era de quem não relaxa desde os tempos de vovó virgem.
Fiquei imaginando o que aconteceria caso ela desprendesse a mesma energia exposta naquela rixa em algo mais produtivo… Ela poderia soltar toda a raiva na academia, esmurrando um saco de areia em aulas de boxe. Poderia usar todo o conhecimento jurídico pesquisando sobre como abrir um empreendimento comercial. Poderia usar a mesma gana que aplica no pedido de aumento de pensão para ganhar o próprio dinheiro. Mas é claro que ela não deve ter pensado nisso. Até mesmo porque há ali toda a mágoa causada por um fim de relacionamento e, para algumas mulheres, não basta apenas pedir (ou conceder) o divórcio: é preciso também infernizar e arruinar o antigo cônjuge.
Confesso que senti alguma pena. Aposto que ela deve ter perdido noites e noites pensando no sujeito, elucubrando diferentes formas de incomodá-lo e de tirar algum proveito material da situação toda. Só que a dita cuja não deve nem notar tal esforço. Decerto é um comportamento que já ficou embutido nos hábitos.
Pois é… Quantas vezes, sem perceber, não aplicamos energia no lugar errado? Algumas pessoas perdem tanto tempo brigando que, se usassem a mesma força em benefício próprio, poderiam conseguir grandes feitos. Concordo que em algumas situações é necessário lutar pelos direitos, sim, mas são raros os casos em que as pessoas deixam as emoções morrerem e analisam racionalmente o risco e o benefício de se meter em uma batalha. Há uma distância enorme entre argumentação sensata e peleja.
Aliás, não é só nos divórcios que se desperdiça energia… Discussões entre amigos, brigas no trânsito, desentendimentos entre irmãos, picuinhas com a colega de trabalho… Custo a acreditar que tenha quem prefira ficar falando mal da ex para os amigos ou maquinando planos de vingança em vez de fazer algo bacana (e nem precisa ser pelo outro; pode ser por si).
Caso nossa amiga lá do bate-boca via celular fizesse isso, por exemplo, provavelmente agora estaria gostosa (de tanto malhar socando o saco de areia), independente (por estar tocando o próprio empreendimento) e com os bolsos cheios (porque um negócio bem administrado sempre rende grana). E de quebra ainda esqueceria o ex que tanto a machucou (o tom ríspido da conversa deixava isso bem claro), afinal uma mente ocupada é uma mente sadia.
Não vou dizer que nunca me enfiei em combates, mas um dia descobri que a maioria deles não valeu a pena. E o que me fez chegar a essa conclusão não foi uma briga da qual saí machucada; apenas me dei conta de que todo tempo livre poderia ser usado para cuidar de mim. É tanta correria, tanta coisa para administrar… Para quê perder tempo exatamente com alguém/alguma coisa que só causa estresse?
Não sei bem como terminou a noite da nervosinha do metrô, pois (felizmente) tive de descer. Mas uma coisa é certa: apesar de estar me lembrando da história dela agora, não tive a mínima vontade de conhecê-la a fundo.
É… O comportamento “brigo por qualquer coisa” ainda traz essa desvantagem: você fica bem menos interessante.

