Compromisso x prisão
Toda semana recebo pelo menos uns três currículos. Às vezes vêm de conhecidos. E às vezes eu mesma peço a amigos que estão à procura de emprego que enviem os seus, assim posso tentar dar uma força.
Ultimamente tenho estado alerta em relação a um fato muito corriqueiro que estampa todos os documentos: a maioria das pessoas não consegue parar muito tempo na mesma empresa. Tudo bem… Há casos e casos. Mas fica bem óbvio quando você saiu para evoluir ou a empresa não foi legal, e quando simplesmente ficou saltitando lá e cá. Se o cara abandona quatro empregos seguidos em meses, fica complicado acreditar que o problema está mesmo nas companhias.
Se, para mim, que conheço o dono do currículo é estranho, imagine para o recrutador, que tem em mãos um papel com um monte de informações de alguém que nunca viu?!
Nem tiro a razão dos membros do RH. Isso porque, ao ter contato com essas pulguinhas de emprego (”sempre pulando de um lado para o outro”), percebo mesmo que são dignas de hesitação caso eu tenha de lhes entregar alguma responsabilidade. A falta de comprometimento não é só no sentido profissional: não conseguem manter relacionamentos afetivos, não persistem nas relações familiares, de amizade, vivem interrompendo os estudos… Como confiar em um indivíduo que não se compromete com nada? A impressão que fica é que ele sempre vai largar tudo pela metade tão logo “enjoar”. Só que no mercado de trabalho isso complica: contratações e demissões têm um preço, as empresas não podem brincar de fazer processo seletivo.
Sei que hoje o mundo está mais ativo e imediatista, então todo mundo se acostumou a respostas a jato em relação a tudo. É evidente que quem lida com a velocidade do e-mail não quer que o reconhecimento profissional chegue no mesmo ritmo do recebimento de uma carta via Correios. Mas ainda assim é preciso ter bom senso.
Ontem mesmo um amigo contou ter saído do emprego após apenas seis meses no cargo. Não me surpreendi. Ele já havia demonstrado desmotivação ao segundo mês. O grande problema é que ele faz isso desde sempre: começa no trabalho, empolga muito no início e logo desmorona. E, pelo que vejo, não dá pistas de que vai mudar o comportamento. Ele não consegue perceber que algumas evoluções só vêm depois de médio ou longo prazo. É mais ou menos como aprender um novo idioma: não espere fluência ao primeiro ano de curso porque é praticamente impossível.
O que me deixa muito preocupada é que conheço outros como ele que já estão em idade bastante avançada para ficar brincando de pula-pula profissional. Depois dos 30, por exemplo, a confiança para se contratar um sujeito que nunca conseguiu ficar um tempo fixo razoável (uns três anos, na minha humilde opinião) numa empresa é quase nula. Eu mesma confesso sinceramente que talvez não contratasse, nem se fosse um amigão do peito. Aliás, fico muito reticente para indicar amigos mais “velhinhos” que não se definiram até hoje.
Em geral as desculpas deles para cair fora são sempre coisas de momento: meu chefe está sendo chato, a função não oferece novidades, não ganho bem (tem gente que tem zero de experiência e quer ganhar 5 mil pratas logo de cara. Então tá…). Olha… Nem sempre morri de amores pelos trabalhos que tive. Nem sempre a remuneração foi proporcional às responsabilidades assumidas. Mas procurei encarar como fase. Tanto que depois de engolir muitos sapinhos, cá estou eu podendo me dar ao luxo de cuspi-los de volta. Bastou saber esperar.
Só que ninguém quer esperar… Querem o megassalário de imediato, querem o cargo de chefia em um semestre, querem o alemão fluente depois da primeira aula, querem amar o emprego todos os dias – sem exceção, como se fosse possível eliminar 100% dos problemas.
Gostaria de poder ajudar esses amigos que perderam tanto tempo procurando o prazer imediato. Mas isso seria enfiar a mão na fogueira e esperar que não queimasse. Em algumas ocasiões até achei que um deles estava tomando jeito, mas depois de poucos meses vi que não. Uma pena.
Agora só espero mesmo que esse pessoal pare para pensar um pouquinho sobre dedicação, sobre vestir a camisa, sobre assumir responsabilidades (porque se você se dispõe a trabalhar em algum lugar, presume-se estar aberto a arcar com o “peso” daquela rotina). Comprometer-se não é se enfiar numa prisão. Tomara mesmo que enxerguem isso.
Eu ainda gostaria de dar um voto de confiança a todos eles, porém, se daqui a cinco anos nenhum permanecer ao menos uns 18 meses num cargo, vai ficar muito complicado acreditar em evolução. E se eu, que estou tão perto e acompanhando a rotina deles, não estarei disposta a ajudar, quem estará?
Não adianta ter talento se não houver maturidade para saber que tudo tem um prazo para acontecer. E toda banda larga do mundo será inútil, pois infelizmente ainda não é possível fazer o donwload de uma pitada de paciência.


Coloquei sua matéria nos meus favoritos e estou aguardando novidades!
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Trunkael, não pude esconder o leve sorriso ao ler sua observação.
Acho que você ainda vai se surpreender bastante então, caso continue visitando o blog.
Conservador? Qual é a surpresa…? Ah, claro. Eu escrevia sobre sexo. Para muitos isso ainda significa “chutar o balde” em todos os âmbitos da vida.
Abraço!
PS: ainda não cheguei aos 30.
Me surpreende um post tão conservador aqui, mas eu até entendo, é difícil não se tornar conservador após os 30.
É, Carla, no seu caso as diferentes cidades vão aparecer no currículo, um indicativo de que houve tentativa de construir a carreira em locais diferentes. Eu também me mudei bastante – e felizmente consegui emprego em todas as cidades onde vivi. E quando resolvi sossegar num lugar, também optei por fazer planos de longo prazo (e isso inclui o campo profissional).
Mas complicado mesmo é lidar com quem muda “só por mudar”, por preguiça, falta de empenho ou medo de assumir responsabilidades. E digo isso porque muitos dos citados amigos que pedem ajuda convivem comigo o suficiente para eu perceber que eles não querem nada com a vida. Aí é dureza… Não dá para confiar.
Abraço, parabéns por estar se empenhando e obrigada por dividir sua história!
Fernanda, concordo plenamente com o seu texto e te falo o meu caso. Me formei em 2003 e me joguei pra outros estados pra trabalhar, pois de onde sou, Vitória (ES), é super complicado e paga-se muito mal. Sinceramente, sempre acreditei em mim. Morei no interior de estados como Bahia e Goiás, só pra poder exercer a profissão de jornalismo, mas chegava uma hora em que você não aprendia mais e nem poderia evoluir (até me obrigaram a cobrir um suicidio, o que me desiludiu, pois como sabes, isso não se cobre – e tenho toda uma história pra contar sobre isso). Quando me pagavam o salário em dia. Mas aprendi, não só profissionalmente, como pessoalmente.
Fui pra Curitiba, vivi de freelas. voltei pra Vitória, agarrei cursos e emprego. Mas ainda assim, visão muito menor do que era capaz de enxergar. Fui pro Rio pra ganhar 400 conto como assessora de imprensa e isso é mais que prostituir a profissão com o que me pediam. E não curtia morar no RJ. Sempre quis vir pra SP. Cheguei aqui, sei do que sou capaz e luto pra provar isso. Tem, de fato, casos e casos. Uns encaram como “pular de galho em galho” e não dar valor ou ter desapego ao que faz, à empresa e outros entendem que você busca o melhor pra você. Eu saí de uma empresa porque acreditava poder fazer mais do que me davam e sei que posso. Terei esta oportunidade agora e não quero ser julgada por ter tentado. Não é desapego, não é motivo de desconfiança, é acreditar que se pode, sim, mais do que te oferecem, algumas vezes, e fazer, de verdade, o que te dá pra fazer. Pior é ficar numa empresa acordando todos os dias de mau humor e fazendo trabalho que qualquer pessoa faria. Também falta valorização do profissional ou a credibilidade no mesmo. Afinal, empresas também falham. E muito. Isso deve ser considerado.
belo texto.
=)