Eu estive lá

Posted on dezembro 6 2009 by Fernanda Lizardo

Após publicar o texto “Garçom, a saideira e uma porção de Prozac” recebi o seguinte comentário (que tomei a liberdade de editar):

Você escreve muito bem, gosto dos seus textos, mas vi que você sempre critica demais quem usa remedios para depressão. Depressão é uma doença que existe mesmo e só quem já teve sabe que é dificil superar. Não me leve a mal, mas acho que é fácil falar quando nunca se ficou doente e se tem a vida legal como a sua parece ser.
Sabrina

Antes de tudo, Sabrina, obrigada pela opinião. Eu pensei em responder diretamente lá na caixa de comentários, mas notei que ia render um texto tão grande, que seria melhor colocá-lo aqui.

Vamos fazer o seguinte? Vou te contar uma história…

O ano era 2001. Eu estava com 20 anos e estudava Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG). Tudo ia bem. Faculdade legal, amigos, vida tranquila de estudante. Eu já morava sozinha naquela época (há um bom tempo aliás) e lidava bem com as responsabilidades.

No segundo semestre do mesmo ano, a universidade entrou em greve. OK. Dificilmente é possível estudar em faculdade pública sem pegar pelo menos uma paralisação durante o curso. Só que aquela greve começou a durar tempo demais. Com isso, claro, todos os estudantes começaram a ir para “casa” (em Ouro Preto é praxe as pessoas saírem de outras cidades para estudar por lá). Eu não pude ir. Meus pais moravam muito longe e havia sempre aquela “ameaça” de retorno às aulas. Em praticamente todas as semanas a faculdade soltava um comunicado dizendo que as negociações estavam avançadas e que as aulas voltariam. Então fiquei esperando.

Só que o tempo foi passando… Semanas… Meses… Imagine isso: uma cidade universitária sem universitários. Ouro Preto é linda, histórica, mas sem a vida estudantil fica morta. Fora dos períodos turísticos também fica deserta. E a greve ainda ocorreu em pleno inverno. Muito frio. Cidade barroca, de clima naturalmente melancólico, coberta por neblina o tempo todo. Nenhuma livraria. Um teatro municipal que nunca tinha espetáculos. O único cinema da cidade estava fechado para reformas. Naquela época a internet era discada e saía caríssimo passar algumas horas navegando. Todos os amigos viajando.

Tentei arrumar algumas distrações. Foi nessa época que fiz matérias para a TV Brasil (antiga TVE) e que prestei serviços para uma empresa de edificações. Mas era muito pouco. Sempre fui ativa. Desde a infância sempre dividi o colégio com aulas de piano, inglês, natação, pintura a óleo… Sempre fiz muitas atividades simultâneas. De repente, não tinha o que fazer. Estava sozinha numa cidade vazia. Comecei a me sentir inútil.

No início não percebi que estava definhando naquele marasmo. Só sei que fui me entregando ao isolamento. Sem notar, fui perdendo o apetite. Sentia muito sono. Em dois ou três meses, minha pele começou a apresentar muitas marcas, como uma reação alérgica a picadas de insetos. Só que parecia que eu havia sido picada por uns trezentos insetos. Os dias passavam, mas eu procurava esconder a situação. Quando a família ligava, dizia que estava tudo bem. Tudo que eu queria era me isolar e não contar para ninguém sobre minha angústia. Não tinha nem vontade de lamentar. Havia perdido o prazer em tudo. Até a dona da casa onde eu morava, que vivia no andar de cima, notou que eu não tocava instrumento algum mais – e reclamou que estava estranhando o silêncio, já que da casa dela sempre me ouvia praticando alguma coisa. Havia chegado a um ponto em que, se alguém dissesse que minha banda favorita iria dar um show particular só para mim e depois me levar a uma festa com todos os integrantes, eu diria “Não, obrigada”. Nem o convite mais sedutor seria capaz de me persuadir.

Consegui manter a situação em segredo por um tempo. Até que um dia minha mãe telefonou e notou que, sempre que me ligava, eu atendia com voz de sono. Ou seja: eu estava sendo acordada pelo telefone. Não importava o horário: dez da manhã, duas da tarde, nove da noite… Eu estava só dormindo. Era o meu jeito de fugir – e de não pensar em fazer uma bobagem também. Aí ela percebeu que as coisas não estavam normais. Quando foi ao meu encontro, achou uma pessoa abatida, desidratada, com sete quilos a menos e com a  pele em estado deplorável. Eu não comia. Não me lembrava nem de beber água mais.

De início, fui ao dermatologista para tratar as marcas na pele. Estavam ficando tão feias que pensei que nunca mais poderia usar um biquini de novo. Ele pediu um hemograma e, quando o resultado chegou, aconteceu o previsto: não havia nada que indicasse reação alérgica. Ele então resolveu ter uma longa conversa comigo. Era um médico de família, me conhecia muito bem. Perguntou sobre minha rotina, alimentação, apetite sexual… Foram perguntas e mais perguntas. Bem… Não foi preciso muito para notar que eu estava em estado depressivo bem avançado.

Ele então receitou 20mg diários de fluoxetina. A dose mínima, disse. Na época, para completar, eu estava passando por um tratamento pesadíssimo à base de isotretinoína, um remédio para acne com efeitos colaterais muito fortes. Já naqueles tempos a FDA (Foods and Drug Administration – órgão que regulamenta o uso de medicamentos nos Estados Unidos) apresentava estudos que ligavam o uso desta medicação a sintomas de depressão. Eram inconclusivos, mas o dermatologista achou melhor aplicar a fluoxetina para contrabalançar caso minha química cerebral estivesse alterada.

Ele também me aconselhou a mudar alguns hábitos. Disse que a melhora também dependia de mim. E me deu um mês de prazo para começar a apresentar alguma evolução – era o tempo necessário para a fluoxetina começar a fazer efeito.

Quando chegou  dezembro, as aulas ainda não haviam voltado. Então chutei o balde e fui para a casa dos meus pais. Passei as festas de fim de ano lá e, ironicamente, o ano letivo reiniciou em 7 de janeiro de 2002. Aí optei por não retornar.

Continuei me cuidando, tomando a medicação, retomando atividades aos poucos. As marcas na pele começaram a sumir (e por sorte não sobrou uma única cicatriz). Fui fazendo a cabeça para sair daquela situação – e principalmente, procurei não fazer qualquer tipo de lamentação ou me colocar na posição de vítima. Ao longo do tempo, fui melhorando. Depois de seis meses, estava bem melhor. Escolhi não voltar à faculdade de música e, como já havia feito os tais trabalhos de reportagem, resolvi cursar jornalismo. No meio do caminho tive um aneurisma (sobre o qual já falei aqui), o que me rendeu uma certa recaída e tornou o período de internação hospitalar bem complicado (meus pais foram muito tolerantes com meu mau-humor; agradeço a paciência deles até hoje).

Decidi que só eu poderia ocasionar a grande mudança que me faria recuperar a joie de vivre. Só voltei a Ouro Preto para arrumar minhas coisas. Vendi alguns móveis, doei o restante, me livrei de quase tudo que tinha. Com o dinheiro vim para o Rio de Janeiro. O resto é história (acho que não preciso dizer que deu tudo certo).

Pois é… É isso.

Talvez agora você pergunte: Mas Fernanda, por que você não falou isso antes? Ora! Porque não vejo sentido em ficar alardeando certas coisas sem motivo. Para quê vou ficar me fazendo de vítima por causa de probleminhas passados se posso falar só de coisas boas? Agora, por exemplo, só toquei no assunto porque alguém levantou uma questão pertinente. Veio a calhar.

Mas enfim… É passado, mas  é parte da minha vivência. E me trouxe lições valiosas.

Só quem teve uma depressão séria sabe o quanto é angustiante perder o prazer por tudo na vida e não conseguir executar as atividades do dia a dia normalmente.

Só quem passou por isso sabe que Prozac não é bala de goma e que, assim como todo remédio, tem seu prazo para fazer efeito (e também efeitos colaterais).

Só quem enfrentou a difícil dor de perder a perspectiva sabe o quão difícil é lidar com o aperto no peito, ter vontade de se isolar e não conseguir forças nem para ficar se queixando com os amigos à mesa do boteco.

Só quem venceu uma depressão sabe que a satisfação é tão imensa, que a luta para não passar por todo o inferno de novo vira uma constante. Por esta razão é que me afasto das pessoas negativas e creio que, sim, é possível fazer escolhas.

Aprendi que pode acontecer de eu cair de novo (e essa queda pode ser desencadeada por qualquer fator: a perda de um trabalho, a morte de um parente ou amigo, o fim de um relacionamento e por aí vai). E todos estamos suscetíveis. E é por esse motivo que procuro me policiar: tenho consciência de que é preciso maturidade para diferenciar a tristeza corriqueira da depressão. Se você tem forças para bater ponto à mesa do barzinho com os amigos toda quinta-feira, mas não tem forças para trabalhar, de repente é caso de rever a vida profissional – e não de se entupir de remédios.

Cada um sabe seu limite até a coisa degringolar, é só questão de observar os próprios sentimentos. No meu caso, por exemplo, sei que ficar inativa é um grande veneno. Eu preciso estar sempre com algum grande plano, estar sempre desejando alguma coisa, trabalhando em cima da realização de uma vontade para ficar bem. É isso que me move: a perspectiva.

Creio que toda a história acima explica bem o porquê de eu conhecer o limite entre a preguiça, a chateaçãozinha e a depressão.

É como uma guerra: nenhum filme vai te dar a dimensão da barbaridade que é se você nunca tiver sido levado ao combate.

6 Responses to “Eu estive lá”

  1. Chaiana disse:

    Já visitei seu site antes. Gosto do modelo e conteúdo! Parabéns!

  2. Michel disse:

    Seus visitantes devem gostar bastante de seu blog porque ele é bem diferente e completo. Gostei também!

  3. Renata disse:

    Acho que a depressão é vista como pandemia pq a vida moderna não ajuda. A gente faz menos esforço para tudo por causa da tecnologia, mas por outro lado a cabeça trabalha menos. Conheço gente que não consegue nem fazer conta de cabeça de tanto que ficou dependente da calculadora. Vc mesma admite que não pode parar senão começa a se sentir inútil. E eu acho que o ser humano em geral é assim.
    Fora que com essa coisa de computador, celular a gente pode ser encontrado em qualquer lugar. Não existe a folga, o sossego, escapar para relaxar. Em vez de relaxar todo mundo fica doido pq tá sem acesso a internet.
    E as relações estão superficiais. Hoje o povo joga no twitter que vai a uma festa para chamar os amigos. Aí nem vê que não tá cultivando relações, mas juntando um grupo que na verdade nem amigo é. Todo mundo ’se ama’ mas na verdade tem um muro entre as pessoas. Acabou a era do amigo do peito, da confidência, de procurar ‘aquela’ pessoa em vez de juntar um grupão que só pensa que se comunica pq tem um blackberry.
    Tecnologia é bom, não me entenda mal, mas acho que falta um pouco de retorno à era do esforço.
    Não é à toa que esses dependentes de Prozac são pessoas na faixa dos 30, desempregadas e que ainda dependem dos pais. É uma geração tão mimada que não sabe resolver nada sozinha – e que acha que o médico vai resolver receitando remedinho. Como a Sabrina colocou na pergunta, depressão é coisa séria, mas vc tá certa em dizer que muita gente não tá deprimida nada. É isso mesmo: quem tá deprimido se isola, perde o ânimo até para ficar de conversa furada e enchendo a cara de cerveja.
    Parabéns pelo texto.
    Abraço.

  4. Beta disse:

    A gente que escreve tá sempre suscetível à incompreensão alheia.

    Eu também acho que remédio para depressão tá banalizado demais. E eu também já estive lá, e convivo com pessoas que estão lá e com outras que pensam que estão. Enfim… muita gente não sabe o que é depressão, muito menos o que é remédio para tal.

    Beijocas.

  5. Quando vi o link para esse post no Twitter decidi vir te dar uma bronca pois apesar de não sofrer de depressão ou ansiedade tenho pessoas muito próximas que sofrem e sei como esses distúrbios são alvo de preconceito afinal eles podem se manifestar sem qualquer razão além do desequilíbrio bioqquímico, ou seja, a vida está maravilhosa, mas a pessoa mergulha na depressão. Aí vi do que se tratava.

    Por outro lado você está certíssima e muita gente se diz deprimida quando está triste e usa e abusa de antidepressivos. Isso sem falar nos que se drogam com eles “de curtição”.

    De acordo com a minha experiência o depressivo raramente admite sua condição preferindo desabar para dentro isolando-se cada vez mais. Não tem essa de viver na rua com amigos.

    Nos casos genuínos de depressão concordo com vc que a pessoa pode sim reagir, ou melhor, ela pode se esforçar para não se entregar.

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