Garçom, a saideira e uma porção de Prozac!
Bar. Eu e mais sete pessoas à mesa. Eu era a mais nova. O restante tinha idade entre 32 e 45 anos. Minha intenção naquele dia era sair para espairecer após um longo dia de trabalho. Queria rir, falar besteira, relaxar mesmo. Não consegui cumprir muito bem o objetivo. Pouca gente soltou bobagens dignas de gargalhada. A maioria reclamou da vida. Reclamou do emprego, ou da falta de um, disse que a vida era horrível, falou mal do trabalho, da mãe, do cachorro, do papagaio… Enfim, lamentações apenas.
Em algum momento, sabe-se lá como, o papo descambou para remédios. Fluoxetina. Prozac. Daforin. Antidepressivos. E cada um desandou a listar as dosagens que tomava. Estou em fase de manutenção, meu terapeuta passou 15mg; Ah, eu estou em 20mg; Eu tomo 80mg. (Deus do céu!) Até que em algum momento um olhar coletivo recaiu sobre mim.
- E você, toma qual dosagem?
Minha única reação foi franzir a testa e dizer:
- Hein?!
Eu não sei se o choque maior foi meu ao constatar que era a única que não consumia tais remedinhos, ou do pessoal por encontrar uma “abstêmia”. (Detalhe: geral tomando antidepressivo, mas enfiando a cara na cerveja.)
Só que sei que, quando fui para casa (mais estressada, afinal passara a noite ouvindo todo mundo reclamar da vida), fiquei pensando no assunto.
Já convivia com aquela turma há uns dois anos, por isso estava quase me acostumando a esse estilo de pensamento a vida não presta, mas vamos levando e tentando adquirir alegrias no bar. E de tanto ler reportagens sobre depressão e afins, quase acreditava na premissa de que ela pode vir a ser uma pandemia.
Até que, recentemente, fui com duas amigas ao cinema. Não nos vemos muito, por causa do ritmo de vida das três, porém, quando nos encontramos é sempre uma festa. Nesse dia, cheguei em casa com a barriga doendo de tanto rir. Desde as horas dentro da sala escura até o bate-papo regado a café depois, só falamos de coisas boas e engraçadas.
Essas meninas têm o perfil um pouco diferente da turminha do Prozac citada lá em cima. A mais nova tem 24. A outra, 29. Ambas são bem-sucedidas. Na data em questão, a primeira estava exultante porque acabara de entregar a monografia e estava a um passinho de concluir a faculdade. A segunda também tinha novidades: após anos de ralação, finalmente estava tendo o reconhecimento profissional que queria. Em comum, ambas exibiam uma coisa que eu não via há tempos: o brilho nos olhos, aquele genuíno, que mostra que você está bem sem precisar dizê-lo. A faísca a mais que só as pessoas que se realizam de fato têm.
Foi aí que notei que talvez estivesse me enfiando no grupo errado. Por que eu deveria acreditar que todos nós estávamos fadados a “curtir” uma depressão? Por que eu haveria de crer que o alerta da OMS – “Depressão será doença mais comum do mundo em 2030″ – teria de estar tão pertinho?
Muitos dos conhecidos lá da mesa do bar já fazem uso de medicamentos há anos (alguns, há mais de dez). E eu não compreendo bem por que continuam agindo como se não tomassem coisa alguma. Não vejo efeito. Só reclamações, muitas reclamações!, e a tal ausência da centelha no olhar. Seria o caso de trocar de terapeuta/psiquiatra? Ou de repensar a vida?
Bem… O fato é que depois desses episódios resolvi repensar a minha. E percebi que estava forçando uma barra para entrar em uma turma que nada tinha a ver comigo. Por várias vezes, quando estive em eventos com a galerinha da fluoxetina, senti um vazio, como se estivesse no lugar errado, junto às pessoas erradas. Mas sempre pensei que fosse por causa da tal iminência de ser atingida pelo mal do século. Se todos estavam sempre desgostosos, eu haveria de ser uma vítima em breve. Ver aquele povo sempre envolto em queixumes me fez pensar que o normal seria esse: estamos aqui juntos, mas há algo dentro de nós que não nos preenche. A vida é isso. Não há nada além. Vamos então curtir a noite para sanar a porcaria que é nossa rotina e fingir que os problemas não existem.
Só depois descobri que esse sentimento que me invadia era um reflexo de todas as lamúrias em volta. Eu não era uma potencial vítima da doença da alma por ela ser estatística, mas por estar cercada por pessoas que consideravam isso um destino comum.
Aí tomei a decisão de nunca mais voltar a encontrar o grupo do Daforin.
Talvez eu não tenha sido justa em abandonar algumas pessoas, mas não podia lutar sozinha contra uma horda que parecia apreciar aquela melancolia que sempre rondava todas as reuniões.
É lógico que criar essa distância não foi uma decisão simples ou fácil, afinal eram pessoas com quem eu convivia – ainda que superficialmente e somente às mesas de bar. Porém, creio que foi sensato de minha parte escolher assim. Eu não teria o direito de tentar mudar ninguém ali. E vai ver eles fossem daquele tipo “felizes na infelicidade”… Preferi não tentar descobrir. Simplesmente sumi. É como diz o ditado: os incomodados que se retirem.
Foi uma decisão muito boa para mim. Redescobri minhas relações anteriores a essa turma. E me lembrei de que já tive bons contatos dotados do brilhozinho do qual falei.
De repente ficou delicioso mudar a dinâmica dos relacionamentos. Redescobri a maravilha que é expressar o afeto por determinados amigos procurando só a parte interessada, sem fazer alarde. Redescobri o quanto é bom receber um convite daquela pessoa especial, que telefona e deixa claro o desejo por sua presença, sem te colocar num balaio de gatos no qual mais 30 sujeitos recebem a mesma mensagem, no esquema vai quem quer. Redescobri o quão bom é conversar com alguém positivo, que tem coisas boas a contar. E tive o prazer de não precisar mais ficar engolindo minhas alegrias, pois há gente disposta a comemorar comigo de verdade (imagine como é contar suas conquistas em uma mesa onde as pessoas se colocam como eternas desafortunadas…? Imaginou o desastre? Pois é…)
Somos todos resultado de nossas escolhas. Cada decisão tomada é responsável por moldar um indivíduo. No dia do cinema com as amigas, percebi que eu podia fazer uma escolha. Eu não precisava ser parte da estatística! Foi quase chocante perceber que a decisão estava na minha mão e que nos últimos dois anos aquele vazio emocional só me invadiu porque eu estava procurando o preenchimento no lugar errado.
Às vezes o outro não tem problema algum. Conforme eu disse, pode ser que aquela turma goste de carregar o pedacinho de tristeza, como os artistas que choram e fazem obras grandiosas no auge da degradação. Mas não é a vida que quero para mim. E optei por essa alternativa porque, lá na frente, sei que vou ser resultado dela. E eu não quero que esse resultado venha em uma bandeja, em pílulas, ao lado da garrafinha de cerveja gelada.


[...] Saidera e uma porção de prozac – Leia o texto e veja quem fez o primeiro comentário [...]
Oi, Fernanda. Vou reproduzir aqui um texto que o Alessandro Martins me enviou e que fala sobre como é bom encontrar gente feliz e descomplicada. Trata-se do relato de uma pessoa que veio ao Brasil, por acaso se encontrou com a nossa turma e ficou radiante com o que viu, ouviu e vivenciou. Se achar que ficou grande demais, pode deletar. Beijos e muita felicidade em 2010.
“É bom estar no meio de pessoas que não se importam com política. Nem com os rumos da literatura contemporânea. É bom estar no meio de pessoas que riem de si e dos outros sem perversidade. Que não julgam. É bom estar no meio de pessoas.
Passei em Curitiba uma agradabilíssima noite com amigos. Tudo bem que eu sabia o nome de apenas dois ou três. Mas eram, vá lá, amigos. Porque me senti completamente à vontade, como há anos não me sentia, para ser eu mesmo. E quem sou eu? Esta é uma pergunta que me faço com espantosa e deprimente freqüência. Eu sou aquele que estava ali, em pé na bancada, comendo um pedaço de pão com muita manteiga. Prazer.
Foram cinco horas de nenhuma conversa séria. Nenhuma teoria da conspiração, nenhuma reclamação, nenhum medo. Éramos, novamente, crianças num jardim de infância – e isso era bom! Voltando para casa percebi que passamos cinco horas – cinco horas! – fazendo trocadilhos imbecis dignos da Praça É Nossa. Ríamos, ríamos muito. Éramos cretina e deliciosamente felizes.
Você pode pensar que estávamos bêbados. Mas… não! Não havia uma só gota de álcool na festa. Estávamos mesmo embriagados pela sensação inequívoca de estarmos juntos. Éramos todos da mesma geração, tínhamos vivido mais ou menos a mesma coisa. Buscávamos coisas bem diversas, é verdade. Mas o tempo nos unia. Sempre vi o Zeitgeist como um monstro. Descobri, nesta noite, que ele pode ser também um fantasminha camarada.
Sinto confessar, mas me falta a convivência com pessoas cujo único objetivo na vida é esta felicidade pequena e adorável. Uma felicidade que não busca se explicar com referências poéticas ou filosóficas. Uma felicidade que simplesmente é. Não éramos pessoas idiotas naquela casa. Cada qual, eu podia perceber, sabia-se dono de uma existência única, marcada por opiniões também únicas. Eram todas admiráveis por sua individualidade. Eram todas louváveis porque não procuravam o prazer pelo massacre do diverso.
Naquela noite, fui feliz. Falei o que pensava sem medo do julgamento. Melhor: muitas vezes falei o que nem pensava. Ninguém levantou a voz. Ninguém fez cara feia. Ninguém engoliu uma opinião por medo. Ninguém emitiu sua opinião para se provar inteligente.
Saí para a noite no meu passo mais alegre. Dou uns pulinhos quando estou assim. A noite estava fria, mesmo sendo novembro. O caminho para casa pareceu seguro demais e aconchegante demais. Deitei na cama. Era aniversário do meu amigo Alessandro. Desnecessário dizer, porém, que o melhor presente quem ganhou fui eu.”
Paulo Polzonoff Jr.
Fez bem, Fernanda… depressão é uma doença verdadeira como disse a Sabrina. Mas doenças também são produtos. E, como todos os produtos, são empurrados para cima de nós. A publicidade, os meios de comunicação, o marketing… há uma indústria que fabrica remédios que, antes do bem estar dos pacientes, está pensando em como pagar a tecnologia investida na produção desses medicamentos e lucrar com isso. Além disso, você demonstrou sabedoria ao deixar o grupo dos fluoxetininianos. Mais cedo ou mais tarde o poder gregário que havia entre eles acabaria por influenciá-la e, a esta altura, você também estaria competindo com eles, dizendo quantas miligramas você estaria tomando. Beijos do Ale.
“Redescobri o quanto é bom receber um convite daquela pessoa especial, que telefona e deixa claro o desejo por sua presença, sem te colocar num balaio de gatos no qual mais 30 sujeitos recebem a mesma mensagem, no esquema vai quem quer.”
É o que falei no outro texto sobre não cultivar relações.Nem me admira esse pessoal viver sem esperança e tomar tanto remédio. Naõ conhecem o carinho de verdade. Hoje declaraação de amor é jogar no twitter coisas como “eu amo meus amigos u-huuuu”. Mas vai ver quem é que tem alguém com quem contar… não tem!
Você fez bem em achar seu caminho. A gente deve ajudar só quem quer ser ajudado mas nesse caso acho que ninguém quer. Parece que gostam mesmo de viver reclamando, tipo a hiena Hardy-har-har “ó vida, ó azar…” aí o melhor é cair fora mesmo para não ser “contaminado” pelo pessimismo.
abraço
Um texto ótimo com questões atuais muito bem colocadas. Vivi algo muito parecido no trabalho recentemente. Tinha mudado de emprego e começava a me relacionar com as colegas. Elas sempre pareciam amigáveis, me chamando para almoçar com elas e tal. Achava isso muito gentil, mas eu simplesmente não me encaixava. Não gostava de sair com elas, não tinha papo e me sentia uma ingrata. Sou uma pessoa tímida e tenho dificuldades para me relacionar com quem não conheço, então foi bem difícil para mim. Fazia de tudo para almoçar com amigas antigas e assim preencher minha semana. Até que uma amiga que também trabalhava lá voltou da licença-maternidade e houve um racha no departamento. E então percebi a razão para isso. Existia o grupinho que usava o almoço para reclamar do trabalho, da chefe, da vida. E existia o outro grupo, de pessoas que enfrentavam problemas e lutavam por suas conquistas como todo mundo, mas que fazia isso com alegria, com um sorriso no rosto, com a satisfação de cultivar boas amizades. E é óbvio que esse seria o meu grupo, para sempre. Parei de me sentir ingrata e vi que relacionamentos são uma questão de afinidade, não de obrigação. Diferentemente dos seus parentes, com quem você muitas vezes é obrigado a conviver, você escolhe seus amigos. Não por preconceitos ou exigências banais, mas por verem a vida de uma jeito parecido com você.
Como você, Fernanda, vi que também não preciso me forçar para apenas fazer parte de um grupo, porque se aquele grupo não me acrescenta nada, significa que me subtrai muita coisa, sobretudo o tempo, que poderia estar passando com pessoas mais positivas ou simplesmente sozinha.
Amei o texto!
Se você vê a vida de um jeito negativo, vai encontrar o que tanto quer ver nas coisas ao seu redor. Procurar positividade traz positividade para a vida. Parece piegas, mas a fórmula é tão simples. Não que isso signifique estar sempre feliz, ou demonstrar que se está feliz mesmo quando não se está, até porque, além de não ser possível estar assim o tempo todo, momentos tristes também te fazem crescer, te fazem repensar a vida. Um complementa o outro, mas, sem dúvida, prefiro ver a vida com alegria e otimismo do que reclamar do que tenho, do que deixei de fazer ou do que ainda não consegui. Para mim agora é o que vale, e agora não consigo ver nada que justifique uma reclamação minha.
Beijos!
Obs.: Eu já entrei em depressão. Tomava remédios sim, mas eram homeopáticos, nada de tarja preta. Nunca tomei! E digo que fiquei assim pouquíssimo tempo porque a depressão foi um jeito do meu corpo gritar que eu não queria estar do jeito que estava na vida. Não via luz no fim do túnel no começo, mas as pessoas que estavam ao meu redor me mostravam que a vida é tão boa e o quanto eu não precisava me sentir como estava que comecei a mudar as minhas atitudes em relação a mim mesma. É, depressão é difícil, mas sei que tem pessoas que optam por se sentirem depressivas, que preferem reclamar da vida do que tentar sair dessa situação. O remédio vira uma bengala, e a bengala parece nunca ir embora porque a pessoa se acostuma a segurá-la.
È fernanda,o meio modifica o individuo,prova disso é que se andarmos com pessoas que levam a vida de boa,rebolando para cumprir seus compromissos,notaremos que temos uma força maior ou igual a deles.Por isso, espero ter aprendido com seu texto mais do que eu já sei…
Pois minha vida não foi fácil,desde a barriga,digo desde a gestação,e olha que não é exagero!!!
saiba que sou seu admirador e torço por vc,a única coisa que lamento; é não poder fazer parte do seu circulo de amizade “ativo”.
bjos sucesso.
Geralmente eu não comento por aqui, mas dessa vez tive que vir. Pra te dar os parabéns. Não apenas pelo texto, mas pela coragem de mudar o rumo, pela maturidade de perceber que não se muda o outro nem o mundo, apenas o seu.
Não vou ficar tecendo elogios demais, pq eu sempre acho q muitos elogios parecem puxação de saco. Mas de novo, parabéns, excelente!
Vc escreve muito bem, gosto dos seus textos mas vi q vc sempre critica de mais quem usa remedios p/ depressão. Depressão eh uma doença q existe mesmo e só quem já teve sabe q é dificil superar. Nao me leva a mal mas acho q eh fácil falar qdo nunca se ficou doente e se tem a vida legal como a sua parece ser. No mais parabéns pelos textos. Bjo.