Missão impossível: filantropia

Posted on dezembro 3 2009 by Fernanda Lizardo

Quantas ligações você já recebeu de instituições de caridade que solicitavam doações? Orfanatos, asilos, associações de portadores de câncer… Assim como você, já recebi incontáveis desses telefonemas – e já contribuí nesses termos diversas vezes.

Porém, na maioria das vezes, nunca fiquei muito satisfeita em ceder apenas dinheiro como meio de ajuda. Primeiro porque há sempre aquela eterna desconfiança sobre como o orçamento do lugar é administrado (e infelizmente já presenciei desvios graves em associações que se dizem filantrópicas). E, segundo, porque simplesmente dar o dinheiro deixa aquela sensação de que não estou fazendo grande diferença. Grana é (muitíssimo) importante, lógico, afinal dependemos completamente disso para viver e adquirir recursos básicos para a sobrevivência – como alimentação e moradia. E eu creio sinceramente que viver em dificuldade financeira tira o sossego de qualquer um. Sem hipocrisia: dinheiro é bom, sim, ponto! Entretanto, eu sempre quis fazer o “algo mais”: conviver com esses grupos que têm algum tipo de carência, viver a rotina deles, dar coisas não materiais como ajuda na organização ou administração do ambiente, ou mesmo um pouco de carinho. Quantos idosos abandonados pela família não gostariam de ter alguém para conversar, ler um livro para eles ou fazer alguma atividade artesanal, que ocupe a mente e o corpo? Quantos bichinhos não ficam sozinhos em gaiolas e não gostariam de um afago? Quantas pessoas não gostariam de ouvir a experiência de terceiros para tentar ver a própria doença como algo contornável e passível de cura?

Perdi a conta de quantos lugares procurei para oferecer esse tipo de ajuda. De abrigos de animais a centros de ajuda a bebês prematuros. E, estranhamente, tive a receptividade menos aguardada em todos eles. Por algum motivo que desconheço, todos estes lugares parecem torcer o nariz quando você oferece algo que não seja dinheiro. E para mim soa muito estranho esse tipo de atitude, pois na hora de clamar por alguma doação, todos sempre expõem as infinitas carências locais. Mas como assim? Passam falta no que diz respeito a cobrir o saldo bancário, mas não sentem falta de outras coisas?

Aliás, penso até mesmo no benefício financeiro que determinado auxílio pode proporcionar… Normalmente, estes locais terceirizam serviços como limpeza e afins. Se tiverem alguém para fazer a limpeza de graça, por exemplo, como serviço voluntário, podem economizar e aplicar os recursos em outras frentes… Sendo assim, por que então essa recusa tão óbvia? Às vezes senti uma verdadeira arrogância por parte dos administradores, uma postura completamente capitalista e até estúpida. Volto a dizer: dinheiro é muito importante, sim. Mas não basta.

Como eu queria poder visitar um asilo e ler um livro para aquela senhora que já não enxerga muito bem e cujos filhos não a veem há 12 anos…! Como eu queria trocar os jornais da gaiola daquele gatinho que está em quarentena por causa de alguma doença não identificada…! Como eu queria bater um papo com aquele moço que está com leucemia e sofrendo de tanto vomitar após as sessões de quimioterapia…! Mas… Qual é o problema em receber esse tipo de ajuda? Simplesmente fico frustradíssima por que não entro um local que ofereça receptividade a esses  serviços. E tal postura só faz a instituição ter uma imagem péssima, pois fica difícil crer que alguém que não aceita a mão amiga realmente precisa de ajuda. Se a falta se resume ao saldo bancário, sinto muito, fica complicado crer no tamanho da dificuldade. O problema é dinheiro?

Tantos falam sobre a necessidade de se fazer um mundo melhor, mas chega a ser engraçado de tão irônico o quanto alguns de nós tentamos sem sucesso. Eu bem que gostaria de ter alguns milhares de reais para doar, mas se isso não é possível, então por que não posso oferecer o que tenho disponível…? A vida não é só o assistencialismo vazio de quem dá os seus R$ 2 e tira todo o peso da consciência por ter feito a sua parte. É fácil deixar lá os seus trocados e sair por aí dizendo que fez a caridade. Mas e a ajuda plena? E o contato real com a dificuldade alheia?

Ainda quero muito encontrar um lugar que aceite outra ajuda, que não seja a financeira. E, se consegui-lo, de fato que cederei vários dias da minha vida – feliz – para lavar banheiros, descascar batatas, segurar os cabelos da menina que está enjoada por causa da medicação ou tocar Besame mucho no teclado para aquele senhorzinho que tem saudades dos tempos de jovem boêmio das gafieiras.

Fica aberto o pedido. Se você conhece um lugar que realmente precise de ajuda (e que queira algo mais do que voluntários para ficar ligando para as pessoas para pedir dinheiro), indique.

Fazer assistencialismo de longe é fácil. Mas doar tempo e consideração, aí é que são elas! Isso para mim vale muito mais do que qualquer tostão que eu possa arrancar da carteira.

One Response to “Missão impossível: filantropia”

  1. Pois Fernanda, do que menos estamos precisando é de dinheiro. Precisamos de um pouquinho de disponibilidade, tempo e comprometimento lá na Coolmeia, Ideias em Cooperação. Claro que uma boa dose de criatividade também ajuda! Se tiver um dedo de chance de ajudar, entra em contato pelo site http://www.coolmeia.org que te digo o que somos, para onde vamos e como podes ajudar!

Leave a Reply