Plano B

Posted on dezembro 17 2009 by Fernanda Lizardo

Eu nunca me dei muito bem com mudanças. Tive épocas de ficar irritada com uma chuva no meio da tarde que estragava a ida ao supermercado planejada com tanta antecedência. Acha que adiantou estressar? Nada. Depois de muita pancada, enxerguei que era um comportamento imaturo. O mundo não girava em torno de mim. Aí fui aprendendo a lidar com imprevistos  – e eles estão sempre aí. Foi então que me propus a ter sempre um plano B.

Quando eu era adolescente, queria muito montar uma banda. E tinha aquele sonho meio irreal de fazer algum sucesso com isso. Sou fã da dinâmica das bandas de garagem que começam despretensiosamente e chegam ao auge de modo quase casual. Recebi apoio em casa para seguir com essa intenção meio maluca, mas dentro de algumas condições.

- Quer fazer sucesso com música? Tudo bem. Então vá estudar.

E lá fui eu fazer faculdade de música.

No meio do caminho, descobri que meus planos não iam dar muito certo. O ramo não era dos melhores e eu não era um talento nato na área. Como sonho não enche barriga, se quisesse trabalhar com algo que me sustentasse, teria de repensar os limites de tal ânsia. Foi algo esquisito de se fazer. Quando você é bem jovem, os sonhos parecem tão palpáveis. Mas vida adulta é outra coisa. De certa forma, quebrar aquele desejo antigo equivaleu a tomar um soco no estômago, pois foi a primeira vez que me dei conta de que era preciso uma boa dose de realismo para levar a vida. O único alívio foi constatar que o desejo de me manter sozinha, sem ajuda financeira de ninguém, era maior do que qualquer outra vontade. Isso me deu forças para modificar a rota.

Aí comecei a mexer com jornalismo. Entrei na profissão quase ao acaso e só iniciei o curso formal na universidade bem depois de ter começado a trabalhar na área. Mudei o rumo dos meus “sonhos” e pensei em construir algo sólido no ramo.  E encarei o desvio como uma ótima forma de me infiltrar no campo dos escritores profissionais, pois também tinha o desejo de lançar um livrinho.

Tudo correu bem por um tempo. Quando completei quatro anos em uma mesma empresa, já levava bem a sério a possibilidade de fazer carreira ali mesmo. Fiquei sabendo que a diretora da sucursal do Canadá começara como estagiária e me animei a crescer da mesma forma. Só que me dei conta de que eu não estava no Canadá. A divisão brasileira não tinha planos de carreira e nem o hábito de reter talentos. Veio uma crise que abalou as estruturas da companhia. Cargos foram cortados. E lá estava eu, deixando a função e sendo obrigada a rever os planos mais uma vez.

Nesse meio tempo, me envolvi mais no ramo editorial, trabalhando com literatura mesmo, em vez de revistas. No esquema de fazer tantos contratos de royalties e aprender a dinâmica do negócio, notei que também não ia ser mole me sustentar como escritora. Eu não sou um Luis Fernando Veríssimo. Aí pensei: “E agora? Não montei minha banda, não vendi milhares de livros, não abri uma lacuna para me tornar presidente da grande empresa jornalística…”

Aí percebi que não precisaria abrir mão de nenhum sonho antigo. Só seria questão de me adaptar a eles.

Não montei minha banda. Mas piano, violão, microfone, gaita e todas as parafernálias possíveis estão lá em casa, sendo ativamente usadas. Não toco para multidões, mas não paro de criar, o que para mim é mais do que suficiente.

O livro saiu (o link para compra está logo ali no topo deste blog, viu?!) Não creio que vá vender grande coisa, mas descobri que não queria viver disso. Queria lançar, só isso, ter meu nome ali na capa e colocar na estante da sala (bem entre o Veríssimo e o Edgar Alan Poe).

A carreira jornalística… Essa acabou sendo substituída por um trabalho bem diferente, na área de logística. E cá estou eu me adaptando de novo, pensando em fazer cursos e especializações no ramo atual, satisfeita com a remuneração e com o reconhecimento.

E as adaptações não se limitaram ao profissional, claro. Houve uma época em que pensei em dividir o apartamento para reduzir um pouco as despesas. Para quem vive só há anos, essa hipótese pode ser um pesadelo. Porém, em vez de me concentrar na parte ruim (colocar uma pessoa no meu apartamento e correr o risco de levar calote; perder a privacidade; não poder receber visitas com a mesma liberdade), me concentrei na parte boa (ter uma companhia constante; gastar menos; ter alguém para me ajudar no dia a dia). O engraçado é que tão logo encontrei a pessoa ideal para morar comigo, consegui um trabalho que trouxe uma fonte de renda inesperada e pude abortar o plano, mantendo a vida como sempre foi.

Agora você pergunta… Mas por que ter um plano B? Muita gente não evolui exatamente por se prender demais a uma determinada perspectiva. Ter sonhos é bom, não desistir deles é melhor ainda, entretanto, estamos em um mundo real no qual as contas não vão parar de chegar enquanto você devaneia e o universo não vai parar para esperar suas decisões. Não adianta ter fé na realização de um desejo se tudo o que você faz é aguardar que as situações venham exatamente como na imaginação.

Em muitas vezes foi terrível seguir a maré. Tive a sensação de estar desviando do que me fazia feliz de verdade. Pensei que nunca poderia dizer que realizei um sonho de infância. Mas realizei. E creio que o rumo foi melhor do que eu pudesse conceber.

Hoje nada me tira do sério. Perdi o emprego? O pretenso namorado resolveu terminar tudo? Vou ter de me mudar de cidade? Os exames acusaram uma doença difícil de ser tratada? Quando se tem um plano B na manga, tudo se resolve – principalmente porque você desencana daquilo que tanto martela a cabeça no momento de desespero. E, de um jeito surpreendente, os velhos sonhos acabam caindo no colo.

Aposto que você tem sonhos que guiam sua vida. E agora? Já pensou no plano B?

One Response to “Plano B”

  1. Laila disse:

    Adorei o texto! A vida é assim mesmo… nem tudo (ou quase nada) sai conforme o inicialmente planejado… e no fim a vida não teria tanta graça sem os acontecimentos inesperados que viram nossa rotina de pernas pro ar. E no fim o saldo final das mudanças é sempre positivo!
    beijos

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