Retrospectiva (e perspectiva)

Posted on dezembro 4 2009 by Fernanda Lizardo

De tempos em tempos, gosto de limpar meus armários e de me livrar de coisas velhas. Jogo fora recibos, anotações aleatórias, doo roupas e sapatos que não uso mais. Ontem, nessa brincadeira, peguei agendas antigas e as coloquei num local mais arejado, pois estavam levemente úmidas. Enquanto as limpava, resolvi reler as antigas anotações (e não há época melhor do que agora, fim de ano, para rever acontecimentos).

Assim como muitas meninas, eu tinha mania de fazer aqueles diários para contar um pouco da vida. O primeiro começou a ser escrito quando eu tinha sete anos. Logicamente, os relatos eram bobos e a primeira coisa que contei foi o fato de minha primeira cachorrinha (que viveu comigo por 15 anos) ter parido a primeira ninhada.

Como mantive essa mania de escrever até uns 21, é óbvio que os relatos começaram a ser tornar mais maduros, intensos… O que importa mesmo é que foi muito interessante analisar o curso da minha vida ao longo dos últimos 20 anos. Aliás, acabei ampliando essa coisa de ver o histórico de vida (a minha e a alheia) e também fiz uma limpeza na “agenda” moderna: históricos de MSN, Gtalk e blogs da lista dos Favoritos.

Foi bom ver o quanto muita coisa mudou para mim (sempre para melhor). E como realizei vários desejos. Mas também foi muito, muito esquisito perceber que alguns amigos estacionaram. Foi meio triste até, eu diria. Em muitos diálogos trocados com eles – alguns de quatro ou cinco anos atrás – encontrei frases como As coisas não estão indo muito bem, eu quero muito mudar. Aí fui chegando aos mais recentes – de dois ou três anos atrás – e lá estava a mesma frase. E parti para os diálogos de três meses atrás e… É. Isso mesmo que você está pensando.

Também li históricos de blogs de amigos que estavam no backup dos meus Favoritos. Alguns nem existem mais há muito tempo. E foi muito frustrante constatar que algumas narrativas de, sei lá, 2002, 2003, poderiam ser reproduzidas hoje, ipsis litteris, que não faria qualquer diferença. Isso me chateia, claro. Quero ver as pessoas que conheço realizadas, por isso a pior parte é notar que as queixas e insatisfações delas se mantêm.  É um festival de Queria estar formado, Me incomoda ainda morar com meus pais; A vida profissional está instável; Não tenho vida amorosa; Não tive o filho que queria; Tive filho na hora errada; Estou no mesmo emprego chato; Me incomoda deitar a cabeça no travesseiro e essa insatisfação não ir embora etc. Intrigante ver que uma pessoa mantém a mesma reclamação por cinco, seis (!) anos – e mesmo inconformada, não faz nada para mudar. Caramba. Seis anos é muita coisa! Dá para se fazer um curso superior inteiro. Dá para se mudar de emprego umas duas vezes. Dá para se fazer uns três filhos. Ou seja: dá para causar uma bela reviravolta! Chega a ser chocante.

Estas mesmas pessoas tiveram bons momentos de lá para cá? Tenho certeza de que sim. Mas não adianta: em geral, a vida depende de vários fatores funcionando juntos, caso contrário não há como se apoiar naquele mínimo que está bem (como uma saída com amigos, que é alegria muito momentânea) pois o que compete nos planos de longo prazo (amor, emprego, dinheiro, relações familiares e afins) faz falta, muita falta. (Até porque, se não fizesse, nenhuma delas estaria reclamando, não é mesmo?!)

Não vou me ater a tentar entender o porquê de a vida de algumas pessoas não dar grandes saltos como a minha. Só sei que, para mim, para o bem ou para o mal, é tudo tão brusco, tão intenso…! Rotina, endereço, trabalho, amores… Mesmo quando algumas pessoas permanecem em minha vida indefinidamente, mesmo mantendo amigos de longa data (alguns da infância, inclusive) as perspectivas e os planos mudam. Eu nunca poderia republicar um velho texto da minha agenda escrito em 2004 com a data de hoje. Não faria sentido algum. Quando escrevi o último, por exemplo, havia acabado de me mudar para o Rio. E de lá para cá tudo se remexeu tanto, tanto, tanto. Se eu quisesse contar tudo de marcante que me aconteceu, levaria dias – talvez meses – para colocar no papel.

De certa forma, foi muito reconfortante ler aquelas velhas anotações e me deparar com histórias das quais eu não me lembrava. Foi bom também reler nomes de gente que talvez eu não veja mais, mas que me fizeram bem em alguma época. Foi ótimo encontrar frases como Um dia eu quero lançar um livro , escritas quando eu tinha apenas 10 anos de idade. Foi uma delícia dar de cara com os detalhes de casos engraçados, dos quais eu me lembrava muito por alto.

Mas também foi frustrante ver que nem todos os meus amigos ou conhecidos estão felizes, que para muitos a vida parece estar estacionada e que os anos correm como um roteiro daqueles filmes em que o mesmo dia se repete sem explicação.

O ano está chegando ao fim… E agora há a tendência a pensar no passado e, principalmente, no futuro. Através dos meus mofados Queridos Diários percebi que tracei um belo passado. Vivo um presente muito bom. E estou preparada para o futuro. E se um dia eu desanimar e ameaçar soltar uma daquelas queixas que tanto li em velhos blogs alheios e em diálogos com amigos, procurarei limpar a mente e pensar em apenas uma frase:

Se você fosse encontrar suas anotações de hoje daqui a cinco anos, o que gostaria de ler?

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