Síndrome de Peter Pan

Posted on novembro 27 2009 by Fernanda Lizardo

Quando eu era adolescente e já começava a fazer planejamentos mais realistas, meu maior pavor era chegar aos 30 anos sem estar estruturada: morando com os pais, em um emprego que não me permitisse pagar todas as despesas sozinha, ou morando com um grupo de amigos tal qual estudantes em júbilo iminente. Ainda tenho dois anos até me tornar oficialmente uma balzaquiana, mas constato – satisfeita – que já consegui a estabilidade que almejava.

Apesar de ter conquistado meu intento, às vezes sou pega por uma sensação de inadequação. Isto porque, ao olhar em volta, vejo pessoas da minha faixa etária (e até bem mais velhas) no estilo de vida que as pessoas vivem quando têm, sei lá, 18 ou 19 anos.

Não é anormal encontrar sujeitos de 29, 32, 35 anos (ou até mais) sem perspectiva de trabalho, morando com a família e ocupando o tempo com festas e mais festas. Alguns não necessariamente vivem ainda com os progenitores, mas carregam resquícios que deixam óbvia a falta de preparo para entrar de vez na vida adulta.

Às vezes moram com amigos – ou até sozinhos – mas o lar tem o eterno aspecto de uma república de estudantes. Fico pensando: como conseguem? Pode ser muito legal viver na bagunça aos 20 e poucos, mas depois de um tempo isso se torna desgastante. É claro que quando eu mesma era estudante, tive de fazer muitas contenções. Já cansei de armazenar apenas garrafas de água em casa – porque ainda não dava para comprar uma geladeira – ou de dormir em um colchão com a densidade de um pão de fôrma. Em alguns meses, é certo que isso me estressou, veio a sensação desgastante de não estar evoluindo. Fico muito assustada quando vou a casa de amigos trintões que vivem numa verdadeira zona. E isso não tem nada a ver com dinheiro, mas com senso de organização e até de higiene. Uma casa bagunçada e suja, ao menos para mim, reflete uma vida bagunçada. Só que, claro, viver como se ainda se estivesse em uma república estudantil ajuda a manter aquele farelinho de “ainda não cresci”.

Há também os eternos estudantes. Começam um curso superior, vão seguindo a grade de forma arrastada e, quando a formatura começa a se aproximar, trancam a matrícula. Aí começam outro. E segue o esquema: períodos cursados lentamente e trancamento. Nada contra mudar de aptidão, é perfeitamente normal iniciar na universidade e não gostar – e todo mundo tem direito de recuar nas escolhas. Só que quando conheço alguém que já vai para a terceira ou quarta faculdade inacabada, desconfio. Por que não terminar ao menos um dos cursos e depois tentar “descobrir a vocação”, quando já tiver pelo menos um diploma? Quem terminou o primeiro curso superior, sabe: a um mês da formatura, o pensamento recorrente é “Ih, vou me formar. Acabou meu status de estudante. O diploma me coloca em outro patamar, me coloca em posição de competir no mercado de igual para igual”. Adiar demais esse “marco social” para a idade adulta é um modo inconsciente de protelar o crescimento.

Mesmo os que trabalham, veem o emprego como uma espécie de paliativo. Dificilmente fazem planejamento, têm poupança, previdência privada ou ficam muito tempo em uma mesma empresa (a média é um ano, no máximo). Também não pensam em um negócio próprio ou em criar condições para ter renda. O trabalho para eles vale como um “aqui e agora”, como uma solução para pagar ingressos dos shows ou a conta do bar. Não há uma carreira.

As relações afetivas são curtas – ou “leves”, como gostam de dizer – já que têm imensa dificuldade em assumir compromissos (mesmo os menos desgastantes, que não envolvem fatores sérios como casamento ou filhos). As relações amorosas ou de amizade são superficiais. É lógico que todos vão jurar que amam seus amigos e que têm camaradas fiéis! Mas, normalmente, a maioria destes amigos foge quando o assunto é resolver um problema sério de verdade. Os contatos, mesmo que constantes, se dão somente à mesa do bar e em festinhas. E vale a máxima do todo mundo pega todo mundo. A relação desse pessoal se resume ao Fulano é meu amigão, u-hu, vamos beber e dançar a noite toda!, e só. A intimidade real não existe. E a lealdade é confundida com o fato de esses amigos fazerem parte de um conjunto que apóia as estultices cometidas reciprocamente. Ninguém aconselha o “amigo” a esfriar a cabeça e a não fazer besteira, mas incentiva a besteira e acha que amizade é isso. Não existe a figura do superego, que puxa as orelhas daquele que está sendo imaturo e irresponsável. Não existe a figura madura que abre os olhos do outro. Aliás, aquele que ousa fazê-lo tende a ser excluído como um desertor. (Note que tal qual os adolescentes, eles têm imensa necessidade de fazer parte de um grupo com interesses em comum. Raramente sabem fazer programas sozinhos ou a dois. É uma forma de escapar da figura representada pelos pais/adultos, que são símbolo do mundo que eles renegam.)

Caso você pergunte a um destes aborrecentes adolescentes tardios se eles querem sair de casa, a maioria dirá que sim. E emendará que quer “um emprego legal, uma casa legal, um companheiro legal”. Sabe o que tenho vontade de responder nessa hora? Ah, legal! De fato, eles nem mesmo sabem definir esse tal legal. E não agem de pronto como pessoas dispostas a realmente caçar um rumo. Muitas vezes, essa atitude nem é de caso pensado. Sempre que encontram uma situação que os coloca frente a frente com um indício de entrada definitiva no mundo adulto – seja a chance de ter um relacionamento estável, um emprego onde as exigências são grandes e a chefia é rígida, uma mudança na rotina festeira – estes indivíduos se jogam em uma autossabotagem inconsciente e estragam tudo com seus “poréns”, “todavias” e “entretantos”. (Porque quem não quer crescer sempre encontra um pretexto para não fazê-lo. É o mercado de trabalho que está difícil, são os pais que precisam de ajuda, o aluguel de apartamento é caro, eles precisam relaxar porque procurar emprego é estressante… Sempre há uma desculpa.)

Diante desse quadro, o que vejo é uma horda de pós-adolescentes deprimidos. Mas aí já não sei se essa depressão é causa ou consequência do panorama.

Será que estão mesmo deprimidos? Ou são tão incapazes de lidar com os percalços normais da vida que consideram qualquer dificuldade um grande obstáculo? Esse grupo normalmente é afeito ao prazer instantâneo e momentâneo, não conhece o significado de persistência, paciência, longo prazo. Por causa disso, não sabe lidar com problemas. Se há qualquer problema (por menor que seja), para eles é sinal de que a vida não vai bem.

Mas e os que estão mesmo deprimidos? A depressão pode ser um indício de que eles têm alguma noção da própria falta de perspectiva, pois sabem que vai ser muito complicado conseguir estabilidade caso continuem renegando o amadurecimento. E a sociedade é cruel. Quem contrata um sujeito de quase 30 anos que não tem curso superior e pouca experiência no currículo? Há exceções, claro, mas elas têm esse nome exatamente por que não podem ser tomadas como regra. E, no caso do adolescente tardio, é mais grave ainda porque ele associa sucesso ao acaso, no fundo almeja uma história de sucesso guiada pela sorte – e não pelo trabalho duro.

O que mais intriga é: como estas pessoas conseguem se levantar de manhã – ou melhor, às três horas da tarde – e não ser tomadas pelo sentimento de inutilidade? Será que não pensam que os pais um dia vão morrer, que se sacolejar numa boate aos 45 anos de idade pode não ter a mesma graça, que no futuro podem ficar sem um tostão até para as necessidades básicas…?

Houve uma época em que resolvi experimentar um pouco dessa vida de farra constante. Estava trabalhando como freelancer e por isso podia fazer meus horários, dormir tarde, começar a trabalhar ao meio-dia. No primeiro mês, é como trocar o almoço por uma taça de sorvete: uma sensação deliciosa de estar burlando o sistema. Mas depois enjoa. E vem uma ânsia louca por um prato de arroz com feijão, por comida de verdade! Mesmo ganhando mais do que em um emprego fixo, em pouco tempo eu estava com o sono alterado e remoendo preocupações do gênero Preciso pagar meu INSS como autônoma, senão vou prejudicar meu fundo de garantia; Está fazendo falta ter um plano de saúde da empresaVou ter de guardar dinheiro este mês porque no próximo não sei se terei trabalho suficiente para cobrir meu orçamento. Aliás, não me admira que todos os membros deste grupo se queixem de insônia, afinal, como ficar cansado se você não se entrega à labuta? O melhor descanso não é aquele que dura muito, mas aquele que vem logo depois de uma semana exaustiva de atribulações. É o caso do sorvete: só é realmente gostoso quando não se torna o padrão.

Uma das coisas mais inteligentes que ouvi veio exatamente de um amigo que admitiu ter prolongado a adolescência: “Eu me dei conta de que entrar na vida adulta envolvia passar uns apertos. Quando me dispus a sair de casa, sabia que não ia ser fácil. Mas eu precisava daquilo até para valorizar o que meus pais fizeram por mim. Precisava saber o esforço que era catar minhas roupas do chão. Eu sabia que o começo ia ser complicado, mas que depois valeria a pena.”

E vale!

Será que estas pessoas que têm tanto medo de crescer pensam que a vida adulta é uma monotonia só? Não é. Até porque ela envolve ter um espaço próprio, pagar as contas e cuidar da vida sem dar satisfação a ninguém, exercer o livre arbítrio e até fazer coisas bobas como arranjar um bicho de estimação novo sem precisar pedir aos donos da casa. E o melhor: se você se joga na piscina de bolinhas naquele aniversário do seu sobrinho ou resolve chegar em casa às seis horas da manhã depois de passar a noite dançando na boate, o faz porque aquilo é uma escolha dentre muitas. No caso dos que arrastam a adolescência, parece ser a única opção.

Ninguém precisa parar de brincar, de contar piadas de duplo sentido, de jogar vídeo-game, de sair com amigos – e também não é obrigado a lavar a louça todos os dias. Por isso nunca entenderei esse medo de crescer e de admitir que a vida tem uns probleminhas constantes, mas que sempre podem ser resolvidos. Porque amadurecer é isso: entender que a vida não é perfeita, mas saber aproveitá-la dentro dessa imperfeição. E é fácil se passar por adolescente aos 30. Mas será que dá para fazer o mesmo aos 40, 50, 60…? Vai mesmo ter graça chegar lá e constatar que nada foi construído? E não falo de abandonar o espírito jovial, mas desse eterno esquivar das responsabilidades.

Se antes eu morria de medo de chegar à vida adulta sem qualquer estabilidade e capacidade de cuidar da minha vida sozinha, hoje receio sofrer o contágio dessa geração pessimista que finge que o tempo não passa. Mas ele passa. E vai ser muito triste para muita gente descobrir isso quando já for tarde demais.

*Não custa lembrar: esse texto não é um tratado psicológico/antropológico oficial sobre nada. É só uma triste constatação depois de perceber o que está sendo feito de boa parte dos meus conhecidos e até amigos…

8 Responses to “Síndrome de Peter Pan”

  1. Rodrigo disse:

    Esse texto explica bem a geração BBB: ganhar dinheiro fácil fazendo pouco esforço, sem estudos e na beira da piscina.

    Parece não ter nada a ver, mas tem. Hoje as pessoas cultivam essa coisa do menor esforço e maior benefício. Mas só quem é adultdo sabe que sem trabalho duro é complicado ficar rico.

    Eu bem que queria ser rico, claro, mas só ganhando na mega sena mesmo. E pra isso ainda ia ter que jogar, deixar meus trocados lá na lotérica e contar com a sorte..rs rs

    Achei ótimo seu texto. O que mais tem hoje é gente assim e isso é muito triste. As pessoas estão no extremo: ou é trabalho ou é bagunça. pensam que conciliar os dois é escolher uma coisa definitiva.

    e os hábitos atuais nem ajudam: é tão fácil ter uma relação sem compromisso, largar emprego, se divorciar, abrir mão dos filhos… Digo, não tem burocracia pra nada mais. Aí todo mundo se acostumou. E com a tecnologia obrigando a gente a ficar cada vez mais ativo, tudo ficou “pra ontem”. Ninguém mais quer pensar que pra aprender um novo idioma leva tempo, para consolidar numa empresa leva tempo, para ser promovido leva tempo, para fazer um namoro dar certo é preciso ceder um pouco…

    Não sei se vale a pena se nostálgico pois nem sempre outras épocas foram melhores, mas seria bom mesmo se esse pessoal mais novo ficasse menos imediatista.

    parabéns pelo trabalho e maturidade

  2. Fernanda Lizardo disse:

    Bruno,
    Só mais um adendo também: eu tenho o trabalho fixo e também sou autônoma. Gosto de me garantir nas duas frentes. ;)
    De qualquer forma, é muito válido esse debate. É o que amplia cada vez mais a visão sobre qualquer assunto.
    Abraço e obrigada novamente.

  3. Só para constar, me desculpe pelas conclusões precipitadas sobre teu artigo, é que você jogou logo de cara os pontos aonde eu mais discordo do teu raciocínio. E olha que eu nem iria ler o restante, só o fiz porque vi pontos atrativos do texto enquanto retornava ao topo da página. Vícios que precisamos corrigir, hehehe.

    Bom, uma coisa eu continuo discordando de você. Quando você falou sobre tua vida de autônoma, você expos um dos lados da realidade… Mas não expôs que como autônoma, você vai ganhar proporcionalmente ao teu empenho. Se você se empenhar mais vai ganhar mais, senão ganhará menos. Trabalhando para os outros, você simplesmente se limita. Claro, não corre riscos. Mas a vida sem riscos tem um grande risco de não ser satisfatória.

    Eu tenho uma experiência totalmente oposta. O período que trabalhei me dedicando apenas a serviços autônomos foi o período aonde tive mais renda em toda a minha vida. Eu fazia faculdade, pagava o financiamento de minha moto e ajudava financeiramente meus pais com meu salário. Obviamente minhas dívidas aumentavam, porque meu salário cobria apenas isso. Comecei a trabalhar como autônomo durante o dia e a montar minha empresa a noite, largando a faculdade. Foram 4 meses para mim zerar todas as minhas dívidas, e mais três para fazer um bom pé-de-meia.

    Hoje minha empresa não me dá o meu sustento acrescido de rendimentos para poupar, o que é normal em todo começo. Ainda faço serviços como autônomo e trabalho 3 manhãs por semana em um emprego fixo para resolver isso. Mas vejo muitos concursados públicos, por exemplo, que tem um emprego estável e uma renda muito maior que a minha, sem conseguir acumular nada para levar para os próximos anos.

    Em relação a faculdade, talvez eu viva uma realidade que me faça pensar diferente sobre ela. Eu simplesmente não tenho ânimo nem tempo para voltar para a minha, e vejo uma triste realidade “academicista fanática” nas universidades hoje.

    Agora te digo uma coisa, se eu não morasse com minha esposa, eu preferiria só armazenar água em casa por falta de geladeira até os 30 anos de idade, ao mesmo tempo que dormiria no clchonete direto no chão e usaria um canto do quarto como “guarda-roupas ao ar livre”, que é o que você tipifica como vida adequada pra minha idade atual, para seguir em busca de meus objetivos que são bem maiores do que ter uma casa confortável e arrumada(e isso, se eu me separar um dia, só terei quando tiver uma empregada).

    A equação é simples, tempo possibilita trabalho que gera dinheiro. Arrumação consome tempo e dinheiro. É preciso gerar mais dinheiro do que o que se consome para acumular algo.

    No mais concordo contigo, tem pessoas que esperam que a vida e o tempo parem para elas, e não fazem nada que as faça crescer. Pessoas que ganham tudo de mãos beijadas e que com certeza não querem nada com nada. E isso não é culpa delas, mas de quem as sustenta e viabiliza suas vidas deste modo. Mas te dou toda a certeza de que isso tem muito mais ligação com a baixa força dos objetivos e com a ausência da necessidade.

  4. Renata disse:

    Tem um texto tbm falando no assunto na época
    http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI104810-15230,00-A+ERA+DOS+ADULTOS+INFANTILIZADOS.html

    eu concordo muito com você.
    E hoje ainda tem aquela justificativa do “a vida é curta”, Carpe diem… Mas muitas vezes é desculpa só pra fugir. Tenho uma prima que inventa todo tipo de motivo pra não sair da casa da minha tia. E olha que ela tá com 37! Uma hora diz que tem que cuidar da tia (que nem tem problema nenhum), outra hora alega que emprego tá complicado, aí arruma emprego e sai logo depois porque ficou chateada com o chefe… sabe que vai ter casa, comida e roupa lavada, né? Pra que se manter no emprego se não tem que preocupar com essas coisas?
    Minha tia mesmo quer que ela saia de casa, mas sabe também que é culpada porque estimulou. Tanto segurou que agora, quando ela tá virando um peso morto, uma mulher velha que não tem vida própria, que só gasta, gasta, gasta, tá preocupada.
    Pior que se minha tira morrer minha prima fica lá. prostrada… nem tem jeito mais.
    naõ sei como a pessoa não se frustra com isso.
    Eu me sentiria muito mal se fosse uma inútil que só resumiria a vida a caçar boatezinhas pra ir com os amigos. Tem tanta coisa mais pra fazer. e esse povo esquece: até pra festa precisa de dinheiro. E o dia que os pais não quiserem dar como é que fica? Aí vai chorar na cama que é lugar quente.

  5. Fernanda Lizardo disse:

    Ué, Bruno, mas quem disse que precisa seguir uma fórmula?
    O ponto não é como o sujeito chega lá, mas o simples fato de ele não querer se esforçar para chegar lá. E quem não consegue manter nada estável na vida – seja um estudo, um trabalho, um relacionamento – não convence que seja digno de confiança. Você entregaria suas ações da bolsa ou projetos para serem administrados por um perdulário?
    Se você quer ter um emprego fixo, investir em ações, montar empresa ou algo que o valha, tanto faz. Mas é preciso ter foco para isso. A propósito: quem trabalha por conta própria costuma ralar muito mais do que um assalariado. Fora que você pode ter “casa, emprego, aposentadoria”, com uma bela renda. Conheço gente que tira 10 mil líquidos por mês porque soube fazer um bom planejamento na “falida” previdência privada (e mesmo que você invista em rendimentos passivos para imitar aquelas capas da Você S/A “Ganhe um milhão até os 35″, se não estudar finanças, vai se colocar em risco de perder uma bela grana. Não adianta querer brincar de cassino).
    Mas o fato é que quem se recusa a ser visionário e só pensa no prazer imediato – como um eterno adolescente – não chega a lugar algum, seja como empregado ou como autônomo. E a prova disso é que todos que conheço que estão nesse estado tomam antidepressivos ou frequentam terapeutas. Se essa vida desregrada fizesse bem, nenhum deles alegaria estar deprimido. São pessoas que sofrem por não ter objetivos (independentemente de eles serem “simplórios” – como você classifica – ou “complexos”, seja lá o que isso queira dizer). E não sou eu quem está dizendo que elas sofrem. Elas mesmas se queixam o tempo todo!
    E mais uma vez há a confusão entre “estabilidade” e “monotonia”. É como eu disse: você pode manter a estabilidade e escolher viver em boates aos 35 (aliás, estranho achar que o conceito de diversão se resume a isso), mas se não criar qualquer embasamento, não vai ter santo que pague as doses de vodca que você pretende consumir na “balada”.
    Não adianta também morar na casa da mãe para ir juntando dinheiro e depois não saber administrá-lo (apesar de que os citados no meu texto são pessoas que não sabem nem mesmo poupar).
    E trabalhar no que se gosta… É possível fazer isso em qualquer época. E quem não sabe o que quer da vida, dificilmente vai saber do que gosta… “A casa legal, o carro legal, a pessoa legal…” É, né? Legal.
    Agradeço o comentário.
    Abraço!

  6. Gostei do artigo, mas uma coisa sempre me incomoda… Porque a grande maioria das pessoas vê como sonho de realização aquele velho “estudar, arrumar um bom emprego, adquirir bens e se aposentar”? Que vida mais sem graça!!

    Os índices de desemprego cada vez mais altos e a previdência cada vez mais falida, e as pessoas priorizam “viver bem” e nunca pensam, por exemplo, em liberdade financeira. Em ter rendimentos passivos e um patrimônio que te sustente, para fazer o que se gosta e não mais trabalhar por necessidade.

    Eu estou com meus 21 anos(quase 22), e sinceramente abro mão de todo esse “conforto antecipado” para ter minha liberdade financeira. Abro mão de levar uma vida organizada e com os devidos recursos para isso, e fujo desse “sonho de realização popular” para levar uma vida melhor.

    E, quem sabe em função desse sacrifício de viver como um de 20 aos 30, eu consiga voltar a ir pra balada e só pensar em festa aos 35… Trabalhar porque gosto, e não por obrigação… Talvez fazer uma faculdade ou algo assim, apenas por hobby…

    Não leve a mal, mas tudo é uma questão de objetivos, e criticar as pessoas que não os tem apresentando objetivos extremamente simplórios como “modelo exemplar” não é o caminho certo.

  7. Raph4 disse:

    Como acabei de twittar, “melhor leitura da semana”, excelente texto que retrata boa parte das pessoas que todos conhecemos – e não sabemos se sentimos pena, desgosto ou sabe-se lá o que, muitos, nossos amigos, o que é realmente complicado.
    Conheço uma turma assim; na verdade quando eu tinha meus 15, 16, já via uns sujeitos com 28, 30 anos nesse estado descrito no texto. Eu, em plena adolescência só conseguia pensar que “ou a vida dessa turma é muito legal, ou muito frustrada”, é, aparenta ser legal, mas só pode ser frustrada. Lamentável.
    Estava devendo um texto “similar”, a alguns amigos que ainda não sairam de casa (mas pelo menos a estes ainda não é tarde), e esse foi a inspiração que me faltava. Parabéns mais uma vez ;)

  8. Krull disse:

    Adorei o texto! Ótima análise… Pra mim, esse povo que “tem medo de amadurecer” acha que amadurecer significa “viver uma vida chata”, como se não houvesse felicidade numa vida madura (talvez até mais… ainda mais se levar o fator “estabilidade” em conta, o que lhe dá todas as possibilidades de, até mesmo, ‘cair na farra’ se um dia você quiser, pois terá todas as condiçõe$ para isso… :) ).

    Amadurecer não é ter uma vida chata, monótona, e sim, com mais possibilidades… criadas e mantidas pela própria pessoa, e de quebra dá um certo “descanso” para o futuro (quem não quer amadurecer acha que não vai chegar, mas chega… e sem uma base sólida construída, ele desmorona).

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